Meta-análise sobre intervenções em ansiedade de morte

O texto a seguir consiste na tradução de partes do artigo “The effects of psychosocial interventions on death anxiety: A meta-analysis and systematic review of randomised controlled trials”, traduzido como “Os efeitos das intervenções psicossociais na ansiedade de morte: uma meta-análise e revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados”.

Algumas pessoas conseguem lidar com o medo da morte de uma forma positiva e adaptativa, por exemplo, vivendo no momento presente e buscando uma existência significativa. Mas para outras pessoas a dificuldade em lidar efetivamente com o medo da morte pode levar a um medo paralisante, ou desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento.

Ao longo das últimas três décadas, a Teoria de Gestão do Terror (Terror Management Theory – TMT) tem sido a abordagem teórica principal em pesquisas sobre o impacto da ansiedade de morte nas pessoas. O TMT propõe que os instintos humanos inatos de autopreservação, junto à consciência de que a morte é inevitável, podem produzir um terror avassalador.

Embora a pesquisa em TMT tenha se concentrado amplamente em explorar o papel de ansiedade da morte no comportamento humano cotidiano, as descobertas também têm implicações importantes para a saúde mental e as populações clínicas. Argumenta-se que a ansiedade de morte seja uma construção transdiagnóstica por sustentar muitas doenças mentais, como o transtorno do pânico, transtorno de ansiedade e doença, transtorno obsessivo-compulsivo, e fobias específicas.

Muitos procedimentos já foram propostos como meio de reduzir a ansiedade da morte. Mas apenas uma revisão sistemática e uma meta-análise foram conduzidas sobre o tema. Maglio (1994) conduziu uma meta-análise sobre os efeitos dos programas de educação sobre a morte na ansiedade da morte. No estudo, foram incluídos delineamentos não randomizados, e estudos que mediram a ansiedade de morte somente após a intervenção, sem uma linha de base. Deste modo, foram analisados 62 estudos envolvendo programas didáticos de educação sobre a morte (palestras e entrega de informações) e experienciais (com foco em dramatizações e discussões em grupo). A análise dos resultados sugeriu que os participantes que concluíram os programas de educação sobre a morte relataram ansiedade de morte significativamente maior do que os participantes em condições controle. Os programas de educação sobre a morte por meio de uma abordagem didática aumentaram mais a ansiedade de morte do que os programas experienciais.

Na revisão sistemática de Grossman, Brooker, Michael e Kissane (2018), foram examinados os efeitos das intervenções psicoterapêuticas sobre a ansiedade da morte entre pacientes adultos com câncer avançado. Embora esta revisão inclua nove estudos, apenas dois mediram especificamente a ansiedade da morte. Destes dois, apenas um utilizou uma medida pré-existente e validada de ansiedade de morte. Assim, embora a revisão tenha concluído que intervenções como a terapia centrada no significado ou a terapia da dignidade parecem ser benéficas para o bem-estar geral, a eficácia desses tratamentos em melhorar especificamente o medo da morte não é clara, e a generalização dessas descobertas para indivíduos sem câncer permanece limitada.

Quanto à presente meta-análise, examinou o impacto das intervenções psicossociais na ansiedade da morte. Particularmente, explorou os efeitos diferenciais entre a educação sobre a morte versus tratamentos terapêuticos, intervenções de terapia cognitivo-comportamental (TCC) versus outras modalidades de tratamento, e amostras clínicas versus não clínicas, para maximizar a utilização clínica.

Os resultados indicaram que, em geral, as intervenções psicossociais produziram reduções significativas na ansiedade da morte, com tamanhos de efeito de pequeno a médio. A TCC, em particular, produziu melhorias significativas na ansiedade de morte. Análises posteriores revelaram que os programas de educação sobre a morte não parecem ter um impacto significativo nos níveis de ansiedade de morte, consistente com pesquisas anteriores. Além disso, a frequência do tratamento em sessões, mas não a duração geral do tratamento, moderou significativamente este efeito, com um maior número de sessões prevendo uma maior redução na ansiedade de morte.

As amostras selecionadas com alta ansiedade de morte tiveram reduções significativamente maiores na ansiedade de morte em relação a amostras que não foram recrutadas com base em medo excessivo de morte. Após controlar os níveis basais de ansiedade de morte, o tipo de terapia não foi mais um preditor significativo da eficácia do tratamento.

Embora as intervenções psicossociais tenham resultado em melhorias significativas na ansiedade da morte, esses resultados devem ser considerados à luz das limitações dessas meta-análises. Em primeiro lugar, o pequeno número de estudos que atendeu aos critérios de inclusão compartilha uma falta de rigor metodológico que limita as conclusões que podem ser tiradas. Alto risco de viés foi encontrado em pelo menos um critério na maioria dos estudos.

Em segundo lugar, a natureza provisória das conclusões é pontuada pela heterogeneidade dos estudos, ilustrada pela variação nas medidas de ansiedade da morte usadas, a variabilidade das condições de controle e as diversas modalidades de tratamento (por exemplo, revisão de vida, logoterapia, etc.). Como tal, embora os tratamentos psicológicos fora da TCC não pareçam produzir mudanças significativas na ansiedade da morte, mais pesquisas podem ser necessárias antes de se tirar conclusões sólidas sobre a eficácia desses tratamentos, para os quais apenas um único estudo foi apresentado na presente meta-análise.

Terceiro, os pequenos tamanhos de amostra de muitos dos estudos incluídos sugerem que a maioria dos estudos foi insuficiente, limitando a capacidade de identificar efeitos pequenos e até moderados. Finalmente, embora alguns estudos envolvam amostras clínicas de indivíduos com um diagnóstico terminal, nenhum estudo incluído foi focado em participantes com diagnóstico de transtorno mental.

Dito isso, a inclusão de quatro estudos com amostras altamente ansiosas pela morte pode indicar a eficácia do tratamento entre aqueles com medos mais generalizados da morte. Isso é particularmente relevante, dadas as evidências recentes de que a ansiedade de morte é significativamente maior entre indivíduos com diagnóstico de saúde mental, e é um indicador significativo da gravidade dos sintomas de saúde mental.

Dada sua relevância para o tratamento do medo da morte, as implicações deste estudo devem ser observadas. Primeiro, a descoberta de que a educação sobre a morte não produziu melhorias significativas na ansiedade da morte apóia descobertas da meta-análise maior de Maglio de programas de educação sobre a morte (1994). No entanto, em contraste com os resultados de Maglio, o presente estudo não descobriu que tais intervenções aumentaram a ansiedade da morte; em vez disso, parecia não haver mudança significativa nos medos da morte. A evidência acumulada sugere que os programas de educação sobre a morte provavelmente não serão eficazes no alívio do medo da morte.

Em segundo lugar, é notável que a frequência da sessão, mas não a duração, foi um preditor significativo de sucesso do tratamento. Ou seja, as intervenções que utilizaram uma série de múltiplas sessões semanais pareceram mais eficazes na redução da ansiedade da morte do que aquelas que envolveram menos sessões de igual duração total, como um workshop de dois dias. A importância de um grande número de sessões de intervenção é consistente com as abordagens atuais de tratamento da ansiedade em geral, bem como do medo da morte em particular, que enfatizam a necessidade de exposição repetida a materiais que provocam ansiedade.

Terceiro, a descoberta de que a TCC produziu maiores reduções na ansiedade de morte em relação a outros tipos de tratamento, sugere que o medo da morte pode ser tratado de forma semelhante a outros tipos de ansiedade. Especificamente, a dessensibilização sistemática pareceu ser particularmente eficaz em vários estudos. Dado que os programas de educação sobre a morte podem ser considerados uma forma de exposição devido à apresentação de material relacionado à morte, é notável que a dessensibilização sistemática, ao invés da mera exposição a informações relevantes sobre a morte, é necessária para a redução de ansiedade da morte. Assim, intervenções futuras visando o medo da morte podem se beneficiar da inclusão de formas de terapia de exposição gradativa.

Referência

Menzies, R. E., Zuccala, M., Sharpe, L., & Dar-Nimrod, I. (2018). The effects of psychosocial interventions on death anxiety: A meta-analysis and systematic review of randomised controlled trials. Journal of Anxiety Disorders, 59, 64–73.